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A construção de uma consciência coletiva

Não há ambiente mais propício para se incentivar projetos filantrópicos do que na escola
Alunas de uma escola pública reunidos brincando

*Por Ana Catharina Quartiero

A falta de incentivos, programas e propostas que engajem os alunos em ações sociais e trabalhos voluntários durante o período escolar e dentro das instituições de ensino é um reflexo direto da cultura de doação brasileira, que ainda é pouco desenvolvida e propagada. Partindo do princípio de que a escola tem o papel de socializar o conhecimento, e tem como dever atuar na formação moral dos alunos e promover seu pleno desenvolvimento como indivíduo e cidadão, devemos nos perguntar se a escola está cumprindo plenamente o seu papel ao não promover e incentivar ações altruístas e filantrópicas.

Durante meu período escolar meu contato com qualquer tipo de ação solidária foi pontual e totalmente opcional, assim, não me recordo de nenhuma discussão em sala de aula que enfatizasse a importância do trabalho voluntário, ou que incentivasse sua prática. Algumas oficinas eram propostas fora da grade horária, porém todas voltadas a ações sociais momentâneas ligadas a um modelo assistencialista. Infelizmente a realidade atual das escolas brasileiras não se diferencia muito da minha, muitas vezes sendo ainda mais precárias e não oferecendo nenhum tipo de contato com esta cultura.

A cultura de doação de um país é um sinal da maturidade e evolução da consciência coletiva de uma sociedade. Ou seja, podemos entender que, quanto maior é a cultura de doação de um país, mais pessoas possuem o entendimento de que elas também são parte e responsáveis pela transformação positiva da sociedade. Se isso começasse a fazer parte do cotidiano logo no período de formação dos indivíduos, se formariam pessoas que se reconhecem como sujeitos sociais capazes de transformarem e serem vetores da mudança, com consciência social muito mais desenvolvida.

Com uma mentalidade voltada a planejamentos de curto prazo, a maioria das ações propostas dentro da escola é assistencialista, caracterizada pela ajuda pontual. Apesar de necessário em momentos específicos e provisórios, o assistencialismo não ajuda a resolver nem minorar os problemas a longo prazo, não busca identificar a causa e trabalhar para cessá-la, e acaba gerando no sujeito atendido uma dependência pelo outro. Se uma visão filantrópica fosse promovida dentro das instituições de ensino, isto é, que busca acabar com os problemas a longo prazo, formaria -se uma sociedade mais efetiva, menos fragmentada e desordenada, que faria a diferença de forma concreta e construiria um trabalho de prevenção, que evitaria gastos futuros desnecessários em diversas áreas.

A filantropia é um dos elementos fundamentais para a construção de uma consciência coletiva, o ato de participar em projetos comunitários altera a percepção da realidade das pessoas e cria um senso de urgência muito mais forte naqueles que, de alguma forma, os realizam. Desta forma se criam agentes sociais comprometidos com um bem coletivo. Não há ambiente mais propício para se incentivar projetos filantrópicos do que na escola. Junto a educadores e colegas, os alunos ainda em processo de formação têm a oportunidade de entrar em contato com a diversidade, se conhecer a partir do outro, e encontrar propósitos. A falta de tais estímulos e fomentos é uma grande lacuna da educação brasileira.

*Ana Catharina Quartiero, de 16 anos, é aluna do 3º ano do ensino médio da Escola Lourenço Castanho, em São Paulo